Sou da companhia da Bugra

sábado, 25 de setembro de 2010

Casulo

pag. 07 e 9 do livro No Reino do Arco-íris/Vanda Ferreira/1993

... E eu aqui
No escuro negro do casulo,
No tempo da espera,
Curtida no desejo da luz.

... E eu aqui
No tamanho deste interior,
No roçar de pele e parede,
texturas de carne e fibra cinza.

... E eu aqui!
Crescida de extensão.
Rachar-se-á minha casca -
Desabrocharei colorida
Minhas asas espreguiçar-se-ão
Sentirei o vento
E flutuarei no ar do espaço.

O casulo?
Ficará preso, morto
Enroscado no tronco estático,
Rasgado, vazio solitário,
Fase ultrapassada,
Descaso da liberdade.

... E eu borboleta
Rebuscada primaveril,
Beijarei a doçura dos aromas,
Dançarei no espaço infiltrado de sol
E, sem limite,
Viverei minha eternidade

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Entrevista concedida ao jornalista Fernando Roldão

Sigam este link e vejam a entrevista no Portal RAJ.

http://www.portalraj.com.br/Noticias/vanda_ferreira/vanda1.htm

Lambeção

Este ar primaveril,
beijado por beija-flores,
perfuma versos,
tinge de verde-esperança,
rima coração e canção,
passarinho e ninho;
alegria, cantoria, folia, formação de familia.

Este ar primaveril
refaz sucumbida morte,
valente desejo de semente;
processa desfolhamento
para plascentear ,
nutrir embriões no exposto útero
fecundado em lambeção de vento.

Vanda Ferreira

domingo, 19 de setembro de 2010

Andança

Meu rastro imprime lembranças;
Andança pelos tortuosos caminhos,
ladrilhados por micros-punhais
que pirograficaram-me a sola dos pés.

Trilhas rumo à luz;
demoradas e agonizantes pausas
em grutas de pedras
habitadas por serpentes.

No vale do inferno,
longa caminhada,
fugitiva das maldades.

Hoje meu rastro imprime gratidão,
desenhos de gloriosa fé.

Entardecimento

Florido ramo de laranjeira
perfuma pensamentos;
rastro da revoada de passarinhos
emana poesia,
leveza de luar no entardecimento da montanha espiadora de mim.

Rãs cantoras,
chocalhos nas gargantas,
para a entranda não solitária da noite.

Saltam para despertar
os morcegos que repousam
no beco de meu peito.

Invasão do labirinto,
sinos de torre não vista,
escondida na história de um secreto caminho
na serra de pedra bruta,
antes da alvorada.

Vanda Ferreira

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Setembro

Ouço o cochicho da chuva mansa;
cócega em meu coração
para pulsar sorrisos curtos, longos, escancarados.

Aconchega gratidão na paz encontrada
em mim-encantada de verdades importantes.

Contida felicidade de Joana
porque senhor João farta-se;

Barro para a construção do lar.

Vanda Ferreira

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Umidade genuina

Chuva lava saudade,
alivia ardências,
encharca desejos,
aduba alegria;

Ressoa telhado,
alquimia de barro,
bronze zumbindo em dedos d'água.

Chuva instala umidade,
inunda a fé no mar aos pés de pomares, jardins e hortas.

No coração da terra pulsa promessas,
sagra futuro,
raiar de plenitudes.

Amanhecerá farturas.

Vanda Ferreira

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Prosa sinestésica

Prosa sinestésica


À minha frente, com os pés descalços, cravados na margem de areia, estava ele totalmente nú; Braços abertos, coração exposto, orelhas escancaradas, olhos voltados para o sagrado. Juntei-me ao acolhedor colo; Abraçados pelo vento, ouvimos sal espumando, uivos e sussurros, enquanto zumbia maresia. A nudez se desfez. Tingimento do sol tatuou o encontro das meninas de meus olhos com o banco solitário .