Sou da companhia da Bugra

domingo, 27 de setembro de 2009

“No Reino do Arco-íris”/ferreira vanda/1993

Seremos sal espumando;

(todo céu tem estrelas, toda vida vê no sol luz calorosa)

Qualquer caminho leva ao mar.


... E eu aqui

no escuro negro do casulo,

no tempo da espera,

curtida no desejo da luz.

... E eu aqui

no tamanho deste interior.

no roçar de pele e parede,

texturas de carne e fibra cinza.

... E eu aqui!

crescida de extensão.

rachar-se-á minha casca...

desabrocharei colorida!

minhas asas espreguiçar-se-ão:

sentirei o vento e flutuarei no ar do espaço.

O casulo?

Ficará preso, morto

enroscado no tronco estático,

rasgado, vazio solitário;

Fase ultrapassada, descaso da liberdade.

... E eu borboleta

rebuscada primaveril,

beijarei a doçura dos aromas,

dançarei no espaço infiltrado de sol,

e sem limite,

viverei minha eternidade...


... Aí num laço sou nó,

concentrado divisório,

tira de braços ao vento,

filamentos despojados,

ao norte, ao sul

estirados na vertical

exalando perfume rosa.

(Ah! Alimento meu físico:

Como carne de bicho,

- fantasiado de temperos –

Sirvo-me civilizada,

pareço superior, herói de guerra,

ganhador de luta insana;

E não sei que é selvagem...

E não tenho sentimentos...

Aí sou cor azul,

formando laço depois do nó;

enlaçado cordão de carne.

E a vida é cor!

... Aí sou simplesmente asas...

Alada vagante,

lambedora de amplidão

sorvendo brisa;

E assim sou tudo,

desprendida,

sagrada na liberdade!



no amanhecer há sol romântico,

luz de amor que desperta,

que unta e desfaz nós!

E não sou mais gravata...

Sou a nudez do coração despido.

O horizonte

é mata amazônica...

Verde vegetal é ar,

sentimento purificante

da poluição não almejada!

... Aí

sou bugra tigresa,

raízes terráqueas,

eternidade de barro,

mestiça de negrura e brancura,

e me pulsa

sangue vermelho exclusivo!

... Aí sou verdura de erva,

mate que mata

saciando o sugar da boca!

... Aí

sou romantismo cardíaco,

palpitação de prazer,

serenidade

amolada em céu desvendado,

Ásia e América ungidas,

esguichando querer aguçado!



Aprecio céu de nuvens,

fofura de espaço...

Galgo sabores

no avistar do horizonte

... Aí

meço o Ocidente,

assunto o Oriente,

ouço tambores,

escuto Américas

e percorro seus mares!

Sou salgada,

areia rosa ou amarela,

cor-de-pérola.

Não! Não há cor!

É branca paz,

tempero de alma,

de oceano, de algas.

E, aí,

tenho vontade de dizer “te amo”,

viro frase, monto letras.

Quebra coração,

desmancha sossego!

Sou lenha para queima...

Árvore seca cortada.

Labaredo incandescida

e fumaceio música,

melodia nos ares!

Extrapolando chaminé: devasso!

... E aí

sou nuvem derramando chuva,

fluindo frescura celeste,

ribombo de gotas.

Fio grosso, fino,

na cor do mundo!

... Aí sou o mundo,

misto de água, terra...

Sou lua e sol,

e tenho coração no cérebro...

Mínguo, renovo,

cresço e inflamo!

Sou o degustar da peregrinação...

Sou marco, chegada, partida,

âncora da liberdade!

... Aí o sol faz magia:

fenômeno crepuscular!!!

Palpita despedida de luz,

promessa de lua!

... A í sou negrura cintilante,

preto estrelado,

abóboda salpicada de prata,

pontos luminosos,

reflexos divinos!

... A í sou emoção,

sou flor,

sou cor,

sou praia!!!

E beija-me onda marítima,

e revoam-me as gaivotas!

... A í sou ventre contraído necessitando parir,

querendo o abortar!

Sou mina minando,

céu da madrugada

com sol raiando.

... A í

quero ver do dia

a exatidão do claro,

o limitar do tempo

para o céu crepuscular.

Medito no entardecer...

Revôo no vôo dos pássaros,

marco encontro com a noite

e peço, do céu, o luar.

... A í

sou praça refletindo luz lunar,

abrigando abandonos;

Sou ponto aninhando fantasias.

... E sou furta-cor,

camaleão destemido,

malícia visual.

... A í

sou olhos-semi-cerrados almejando sonho;

Querendo adormecer realidade

e conhecer espirituoso mundo!

... A í sou fronteira atravessada pela sanga...

E tenho coroa de flores

colhidas no campo

onde não há espinhos.

Sou leito embalador de água...

Passiva me mantenho!

Águas passaram...

Percorrem-me novas águas

que seguirão meu destino...

trajetória ao mar.

.. E aí

sou o latejar do encontro,

coração ao encanto...

E provo o sal,

e sou limpidez

esbarrando difamação!

... Sou oceânica,

Inquietude verde...

Engulo o dia

e mastigo a noite.

... A í sinto frio e amo o calor;

Sinto saudade e amo a presença!

Vejo no hoje o amanhã:

Na chuva de inverno

a divulgar a primavera...

Viro bicho preguiça...

Pendurada em sonho...

E sou hiena feliz,

cópia de canto risonho!

... A í...

Acordam-me os pássaros,

e sou árvore na alvorada,

sustentáculo de filhotes

em fome amanhecida.

E pego rabeira no raio-de-sol

e pouso na palha de frieza seca para torná-la dourada!

... E sou palha pronta,

Manuseia-me o peão;

Alisa-me,

me enrola e me traga,

queimando nicotina

na saliva de café.

...Aí meu coração rodeia campo.

Olhar varredor,

com auréola matuta;

Pura tigresia amando terra!

...Aí sou adepta do amor,

Filha da mãe-natureza!

Sou água, sou pedra,

rocha lendária!

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